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Whiskies

Taketsuru e Rita: A História de Amor que Criou o Whisky Japonês

23 Mai 2026 6 min
Taketsuru e Rita: A História de Amor que Criou o Whisky Japonês

Taketsuru e Rita: A História de Amor que Criou o Whisky Japonês

Esta é uma história que tem tudo: um jovem ambicioso, uma viagem impossível, um romance proibido, uma indústria que mudou o mundo, e um whisky lançado em homenagem a um amor perdido.

O filho do sake

Masataka Taketsuru nasceu em 1894 em Takehara, uma pequena cidade costeira na prefeitura de Hiroshima. Sua família produzia sake desde 1733, sete gerações de artesanato líquido. O jovem Masataka estudou química e fermentação na Universidade de Osaka, mas seu fascínio não era o sake. Era uma bebida que ele mal conhecia: o whisky.

Em 1918, aos 24 anos, Taketsuru fez algo extraordinário para a época: embarcou num navio rumo à Escócia para aprender a arte do whisky direto na fonte. A viagem levou semanas.

Glasgow, Longmorn e uma escocesa chamada Rita

Taketsuru matriculou-se na Universidade de Glasgow para estudar química orgânica. Estagiou em três destilarias escocesas, Longmorn, Bo'ness e Hazelburn, onde anotou meticulosamente cada detalhe do processo em cadernos que se tornaram o alicerce da indústria japonesa de whisky.

E foi na Escócia que conheceu Jessie Roberta "Rita" Cowan, uma jovem escocesa de família tradicional. Apaixonaram-se. Decidir casar foi um ato de coragem que enfrentou resistência dos dois lados: a família Cowan não aprovava a filha casando com um japonês. A família Taketsuru não aceitava uma nora estrangeira.

Casaram-se mesmo assim, em 1920, e partiram juntos para o Japão.

Yamazaki e a separação

No Japão, Taketsuru foi contratado por Shinjiro Torii, um empresário visionário que queria criar o primeiro whisky japonês. Juntos, construíram a destilaria Yamazaki em 1923, nos arredores de Kyoto, um local escolhido por Torii pela qualidade da água, mas que Taketsuru considerava quente demais para produzir whisky no estilo escocês.

A divergência de visão levou à separação. Torii seguiu com a Suntory, ajustando o perfil do whisky ao paladar japonês, mais suave, mais floral. Taketsuru, fiel à tradição escocesa, partiu para criar algo próprio.

Nikka e Yoichi

Em 1934, Taketsuru fundou sua própria empresa (que se tornaria a Nikka) e construiu uma destilaria em Yoichi, na ilha de Hokkaido, o ponto mais ao norte do Japão. Escolheu Yoichi porque o clima frio, a brisa marítima, a umidade e a turfa local lembravam a Escócia.

Rita o acompanhou. Adaptou-se à vida no Japão rural, aprendeu japonês, tornou-se querida na comunidade local. Os dois passaram décadas juntos construindo a Nikka.

Rita morreu em 1961. Taketsuru, devastado, lançou o Super Nikka em sua homenagem, uma expressão premium que carregava toda a emoção de uma vida compartilhada entre dois mundos.

O aluno supera o mestre

Em 2003, aconteceu o impensável: o Yamazaki 12 anos, da destilaria que Taketsuru ajudou a construir décadas antes, foi eleito o melhor whisky do mundo numa competição internacional. A Escócia, pela primeira vez, viu seu trono ameaçado.

A indústria japonesa de whisky que Taketsuru plantou com cadernos de anotações e a coragem de um casamento improvável tinha, 80 anos depois, superado os mestres.

Na taça

O whisky japonês se distingue pela precisão e pela harmonia. Um Yamazaki 12 anos traz notas de pêssego, baunilha, canela e um toque floral (a influência do carvalho japonês mizunara). Um Nikka From The Barrel entrega intensidade, caramelo, especiarias e profundidade.

A tradição japonesa sugere adicionar uma gota de água, ou apreciar no estilo highball (com soda), como fazem nos bares de Tokyo.

Um químico, uma escocesa, um navio e uns cadernos de anotações. Foi assim que nasceu uma das grandes indústrias de destilados do planeta.

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