A Cachaça e as 40 Madeiras: O Destilado Mais Diverso do Planeta

A Cachaça e as 40 Madeiras: O Destilado Mais Diverso do Planeta
Pergunte a alguém qual é o destilado mais diverso do mundo e a resposta quase nunca será "cachaça". Mas deveria.
O monopólio do carvalho
No universo dos destilados envelhecidos, existe uma ditadura silenciosa: a do carvalho. O whisky escocês envelhece em carvalho. O bourbon, em carvalho americano novo e queimado. O cognac, em carvalho francês (Limousin ou Tronçais). O rum, quase sempre em carvalho. A tequila, em carvalho. O carvalho é rei, imperador e deus, e ninguém questiona.
A cachaça questiona.
Uma floresta inteira
O Brasil, com a maior biodiversidade florestal do planeta, oferece à cachaça algo que nenhum outro país pode oferecer a nenhum outro destilado: mais de 40 espécies de madeiras aptas para envelhecimento, quase todas nativas.
Cada madeira transforma a cachaça de forma radicalmente diferente:
A amburana (Amburana cearensis) é a estrela. Nativa da Caatinga e do Cerrado, produz uma cachaça com notas de baunilha, canela, cravo e erva-doce, tão suave que a chamam de "cetim líquido". O segredo é a cumarina, a mesma molécula que dá aroma ao foin coupé (feno fresco cortado), presente em vinhos tintos e no tabaco.
O bálsamo (Myroxylon balsamum) dá especiarias intensas, cravo dominante, gengibre, um toque medicinal que lembra bálsamo (o nome não é coincidência). É a madeira de Salinas, Minas Gerais, a capital da cachaça.
O jequitibá-rosa (Cariniana legalis) é comparado ao carvalho americano pela vanilina que libera. Dá cor dourada intensa e taninos suaves. A castanheira (Bertholletia excelsa), a árvore da castanha-do-pará, entrega notas tostadas, chocolate e caramelo.
O ipê (Handroanthus), a árvore-símbolo nacional, dá tom alaranjado e personalidade forte. A grapia (Apuleia leiocarpa) é usada no Sul, com perfil mais sutil. A canela-sassafrás (Ocotea odorifera), ameaçada de extinção, produz cachaças raríssimas com aroma inconfundível.
E existem ainda o freijó, a garapeira, o louro, o amendoim, o cedro, o jatobá, a peroba, cada uma com assinatura própria.
O acidente no lombo da mula
A descoberta do envelhecimento da cachaça é brasileira pura, e acidental. Durante a corrida do ouro em Minas Gerais (séculos XVII e XVIII), a cachaça era transportada do litoral para o interior em barris de madeira no lombo de burros e mulas, pelas estradas precárias das Gerais.
A viagem levava semanas. E quando a cachaça chegava ao destino, os mineradores percebiam algo estranho: o destilado tinha mudado. Estava com cor. Mais suave. Aromas que não existiam quando saiu do alambique.
Ninguém planejou o envelhecimento. Ele simplesmente aconteceu nas costas de uma mula, numa estrada de terra de Minas Gerais. E como os barris eram feitos com a madeira que havia disponível, não carvalho francês, mas amburana, bálsamo, jequitibá, a cachaça desenvolveu uma identidade que nenhum outro destilado pode replicar.
O primeiro destilado das Américas
A cachaça é, historicamente, o primeiro destilado produzido nas Américas, datada de aproximadamente 1520, nos engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco. É anterior ao bourbon (séc. XVIII), ao rum caribenho como o conhecemos (séc. XVII) e à tequila (séc. XVI, mas a versão destilada moderna é posterior).
E ainda assim, no Brasil, a cachaça carrega o estigma de "bebida barata". Uma cachaça envelhecida em amburana por 8 anos, servida em taça tulipa, com uma gota de água que libera aromas de baunilha e canela, é uma experiência que rivaliza com qualquer single malt escocês. Mas custa uma fração.
Na taça
Sim, taça. Não copinho. A cachaça envelhecida merece uma tulipa ou um copo de degustação. Adicione uma gota de água, assim como se faz com whisky, e observe a cumarina da amburana se abrir: baunilha, canela, erva-doce. Note a cor (âmbar, ouro, cobre, depende da madeira). Sinta o corpo (sedoso, aveludado) e o final (longo, especiado, complexo).
O carvalho é uma nota só. A cachaça é uma orquestra de 40 instrumentos.