A Uva com Identidade Roubada: Como a Zinfandel Descobriu que Era Croata

Existe uma uva que, durante quase dois séculos, ninguém sabia de onde vinha. Os americanos a chamavam de sua uva, a Zinfandel, o orgulho da Califórnia, a que alimentou mineiros na corrida do ouro de 1849 e sobreviveu à Lei Seca dos anos 1920. Era tão americana quanto o bourbon.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, no sul da Itália, uma uva chamada Primitivo produzia vinhos suspeitosamente parecidos na Puglia. Os italianos insistiam: "É nossa." Os americanos respondiam: "Impossível."
O teste de DNA
Em 1994, a geneticista Carole Meredith, da Universidade da Califórnia em Davis, decidiu resolver a questão com ciência. Analisou o DNA de ambas as uvas e confirmou: Zinfandel e Primitivo eram geneticamente idênticas. A mesma uva, dois nomes, dois continentes.
Mas isso criou uma pergunta ainda maior: se a uva é a mesma, quem a teve primeiro? De onde veio a original?
O vilarejo croata
A resposta levou mais sete anos. Em 2001, Meredith trabalhou com os ampelógrafos croatas Ivan Pejić e Edi Maletić, que vasculharam vinhedos abandonados ao longo da costa da Dalmácia, na Croácia.
Em setembro daquele ano, semanas antes dos atentados de 11 de setembro, encontraram oito pés de uma uva rara chamada Crljenak Kaštelanski (pronuncia-se algo como tsér-lyé-nak) num vilarejo perto de Split. O teste de DNA não deixou dúvidas: Zinfandel, Primitivo e Crljenak são a mesma uva.
A uva mais "americana" do mundo nasceu na Croácia.
O que o terroir faz
O mais fascinante é o que cada terroir fez com o mesmo material genético. Na Croácia, a Crljenak quase desapareceu, restaram poucas vinhas, esquecidas. Na Itália, virou Primitivo: vinhos potentes, solares, com frutas muito maduras. Na Califórnia, a Zinfandel encontrou o solo vulcânico e o clima quente dos vales, e se transformou: frutas negras exuberantes, pimenta preta, defumado, corpo generoso com 14 a 16% de álcool.
A mesma uva, três identidades completamente diferentes. Se isso não é a definição perfeita de terroir, nada é.
Na taça
Um bom Zinfandel californiano tem cor rubi profunda com reflexos violáceos. No nariz, frutas negras maduras (amora, mirtilo), pimenta preta, um toque de especiarias. Na boca, é generoso, com taninos presentes mas redondos e um final longo com notas defumadas.
A Zinfandel é a prova de que, às vezes, você precisa mudar de país, ou de continente, para descobrir quem realmente é.