O Erro Mais Delicioso da Enologia: A História do Amarone

Algumas das maiores descobertas da humanidade nasceram de erros. A penicilina veio de um fungo que contaminou uma placa de Petri. O micro-ondas surgiu de um chocolate que derreteu no bolso de um engenheiro. E o Amarone della Valpolicella, um dos vinhos mais grandiosos da Itália, nasceu de um barril esquecido.
O barril esquecido
Estamos em 1936, na cantina cooperativa de Negrar, no coração da Valpolicella, perto de Verona. O enólogo responsável, Adelino Lucchese, fazia o Recioto, o tradicional vinho doce da região, produzido há séculos com uvas parcialmente secas.
O processo do Recioto é engenhoso: as uvas são colhidas e colocadas em caixas de madeira (arele) para secar por 3 a 4 meses em galpões ventilados. Esse processo, chamado appassimento, desidrata as uvas, elas perdem até 40% do peso, concentrando açúcar, cor e sabor. Quando finalmente são prensadas e fermentadas, o resultado é um vinho doce, rico, intenso.
Mas naquele ano, algo deu errado. Um barril de Recioto ficou esquecido. Ninguém monitorou a fermentação. E o levedo, sem supervisão, fez o que sabe fazer: consumiu TODO o açúcar residual. O vinho doce virou completamente seco.
"Questo non è un amaro..."
Lucchese descobriu o barril, provou o conteúdo, e em vez de descartá-lo, exclamou a frase que batizaria um dos maiores vinhos do mundo:
*"Questo non è un amaro, è un **Amarone**!"*
"Isto não é um amargo, é um GRANDE amargo!"
O que ele tinha na boca era algo que ninguém havia provado antes: toda a concentração e complexidade do appassimento, mas sem o açúcar. Um vinho seco com 15 a 16% de álcool natural (sem adição), corpo monumental, e uma complexidade aromática que incluía cereja preta, chocolate amargo, tabaco, couro, especiarias.
O processo
O que torna o Amarone tão especial é a paciência que ele exige. As uvas, principalmente Corvina, Corvinone e Rondinella, são colhidas em outubro e secam até janeiro ou fevereiro. Durante esses meses, o produtor controla ventilação, umidade e temperatura para evitar mofo e garantir uma desidratação uniforme.
Quando as uvas finalmente são prensadas, o mosto é extremamente concentrado. A fermentação é lenta, pode levar meses, porque o levedo trabalha com dificuldade num ambiente tão rico em açúcar. E depois, o vinho descansa em barris de carvalho por 2 a 5 anos.
É um vinho que exige tempo em cada etapa. Talvez por isso tenha tanto para contar.
Na taça
O Amarone tem cor granada profunda, quase opaca. O nariz é uma sinfonia: cereja preta, ameixa seca, chocolate, tabaco, um toque de bálsamo. Na boca, o corpo é imenso, mas surpreendentemente aveludado, os taninos foram domados pela concentração. O final dura minutos.
É o que acontece quando um erro é bom demais para ser corrigido.