O Clube Mais Exclusivo da Cerveja: As Trapistas do Mundo

O Clube Mais Exclusivo da Cerveja: As Trapistas do Mundo
No universo do vinho, existe o conceito de denominação de origem: só Champagne produzido em Champagne pode se chamar Champagne. No mundo da cerveja, existe algo ainda mais restritivo: o selo Authentic Trappist Product (ATP).
Para uma cervejaria receber esse selo, não basta fazer cerveja boa. É preciso cumprir três regras inegociáveis, fiscalizadas pela International Trappist Association:
A cerveja deve ser produzida dentro dos muros de um mosteiro trapista. Não ao lado, não "inspirada por", dentro. A produção deve acontecer sob supervisão direta dos monges (ou monjas). E o lucro deve ser destinado à manutenção da comunidade monástica e a obras de caridade. Nada de acionistas, nada de dividendos.
Hoje, cerca de dez cervejarias no mundo carregam esse selo. O número é dinâmico, cervejarias entram e saem conforme a vida monástica muda. A Spencer, nos EUA, fechou em 2022. A Achel, na Bélgica, perdeu o selo em 2021 quando o último monge deixou a abadia.
As guardiãs da tradição
Na Bélgica, cinco abadias mantêm a tradição que começou no século VI, quando monges beneditinos começaram a produzir cerveja como forma de autossustento:
Westvleteren, no interior da Flandres Ocidental, produz a cerveja mais cobiçada do planeta. A Westvleteren 12 é regularmente votada como a melhor cerveja do mundo. Não tem distribuição comercial, você precisa ligar para a abadia, agendar uma retirada, e ir buscar pessoalmente. Limite: uma caixa por carro, uma compra a cada 60 dias.
Chimay é a mais acessível e a mais conhecida internacionalmente. Orval se distingue por usar Brettanomyces, uma levedura selvagem que dá caráter funky e terroso. Rochefort é a mais discreta, produzindo apenas três cervejas numeradas (6, 8 e 10). E Westmalle inventou dois dos estilos mais importantes da cerveja belga: a Dubbel e a Tripel.
Fora da Bélgica, a holandesa La Trappe foi a primeira trapista fora do território belga. A Tre Fontane, em Roma, produz cerveja com eucalipto plantado pelos próprios monges. E a inglesa Tynt Meadow, da abadia de Mount Saint Bernard, produz uma única cerveja, uma dark ale encorpada que conquistou críticos desde o lançamento.
O paralelo com o vinho
O que torna as Trapistas tão fascinantes para quem vem do mundo do vinho é o paralelo perfeito com as denominações de origem. "Trapista" não é um estilo de cerveja, é uma certificação de procedência, como Champagne ou Chianti Classico. Existe Dubbel, Tripel, Quadrupel e Strong Dark Ale trapista, mas também existe Pilsner trapista (La Trappe faz uma) e Pale Ale trapista.
O selo diz quem fez e por que fez, não o que é. É autenticidade, não estilo.
Na taça
Se você encontrar uma Trapista, sirva com respeito: taça cálice (nunca copo americano), temperatura entre 10 e 14°C, despejando lentamente para controlar a espuma cremosa. Observe a cor, de dourado brilhante (Tripel) a castanho profundo (Quadrupel). Cheire: ésteres frutados, malte, especiarias, levedura. Beba: corpo cheio, carbonatação viva, final longo.
É cerveja feita por monges que acordam às 3h15 da madrugada para rezar. A dedicação está em cada gole.